A recente aprovação histórica do Acordo UE-Mercosul marca um ponto de virada nas relações birregionais, com a União Europeia posicionando-se a favor de um novo quadro de cooperação. Contudo, este avanço não está isento de desafios. O caminho agora segue para os próximos passos cruciais, que abrangem desde a assinatura formal até a complexa ratificação parlamentar. Paralelamente, o processo de votação na UE revelou divergências internas significativas, que continuarão a moldar a implementação e o futuro deste pacto ambicioso.
Aprovação Histórica e o Posicionamento da União Europeia
A Comissão Europeia, sob a liderança de sua presidente Ursula von der Leyen, confirmou a aprovação, por ampla maioria dos países-membros da União Europeia (UE), do acordo de livre comércio com o Mercosul. Von der Leyen classificou a decisão do Conselho como “histórica”, enfatizando que “a Europa está enviando um sinal forte” com esta medida.
A presidente da Comissão Europeia reiterou o compromisso do bloco em “criar crescimento, empregos e em garantir os interesses dos consumidores e das empresas europeias”. Em um comunicado mais detalhado, ela sublinhou a importância estratégica do acordo em um cenário global onde “o comércio e as dependências estão sendo usadas como armas”. Para a UE, este pacto é uma demonstração de que a Europa “traça seu próprio curso e se mantém como uma parceira confiável”.
O Processo de Aprovação no Conselho Europeu
A aprovação no Conselho Europeu seguiu as regras internas do bloco, exigindo o aval de pelo menos 15 dos 27 Estados-membros, que em conjunto deveriam representar no mínimo 65% da população total da UE. Embora tenha sido aprovado por ampla maioria, o processo não foi unânime. Países como Polônia, Áustria, França, Hungria e Irlanda votaram contra o acordo, expressando suas ressalvas internas.
Próximos Passos e a Perspectiva Europeia
Com a aprovação no Conselho, o próximo passo imediato é a ratificação do acordo com os países-membros do Mercosul, um processo que a presidente Ursula von der Leyen planeja iniciar em breve, com uma viagem ao Paraguai. Para que o acordo entre efetivamente em vigor, ele ainda necessitará de aprovação no Parlamento Europeu. A presidente da Comissão também destacou a “forte liderança e boa cooperação” do presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante o período em que o Brasil presidiu o Mercosul, reforçando o reconhecimento da parceria.
Próximos Passos: Da Assinatura à Ratificação Parlamentar
Após a aprovação, por ampla maioria, no Conselho da União Europeia, o Acordo UE-Mercosul avança para as próximas fases protocolares e legislativas. O primeiro passo imediato será a assinatura formal do acordo pelas lideranças executivas de ambos os blocos. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, já manifestou a intenção de viajar ao Paraguai, país que detém a presidência pro-tempore do Mercosul, para ratificar o acordo com os países-membros do bloco sul-americano. Esta etapa representa a formalização do texto negociado a nível executivo, marcando um compromisso oficial entre as partes.
Apesar da assinatura executiva, o processo de implementação do acordo está longe de ser concluído. Para que o tratado adquira força legal plena e possa entrar em vigor, ele necessitará de aprovação e ratificação por diversas instâncias legislativas, tanto na União Europeia quanto nos países do Mercosul. Esta fase de ratificação parlamentar é crucial e pode apresentar desafios consideráveis, dada a complexidade e a diversidade de interesses envolvidos.
No lado europeu, o principal obstáculo subsequente à assinatura é a necessidade de aprovação pelo Parlamento Europeu. Esta votação representa uma etapa democrática fundamental, onde os eurodeputados analisarão o acordo em detalhe, considerando seus impactos ambientais, sociais, econômicos e trabalhistas. A aprovação do Parlamento Europeu é um requisito inegociável para que o acordo possa avançar, e a sua não obtenção pode inviabilizar todo o processo, como já ocorreu com outros acordos comerciais no passado.
Paralelamente, nos países do Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai), o acordo também precisará ser submetido aos respectivos parlamentos nacionais para ratificação. Cada legislativo terá a prerrogativa de analisar e votar o texto, um processo que pode envolver debates intensos e potenciais ajustes ou atrasos. Somente após a conclusão bem-sucedida de todas essas etapas de ratificação parlamentar em ambos os blocos é que o Acordo UE-Mercosul poderá ser finalmente implementado, transformando as diretrizes negociadas em políticas comerciais e regulatórias operacionais.
Divergências Internas e o Processo de Votação da UE
A aprovação do Acordo UE-Mercosul pelo Conselho Europeu, embora confirmada como um marco histórico pela Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, não ocorreu sem expressivas divergências internas. A decisão reflete um consenso majoritário, mas também evidencia a complexidade de harmonizar os interesses dos 27 Estados-membros do bloco em um tema de grande impacto econômico e social.
Cinco países da União Europeia manifestaram-se contra a proposta: Polônia, Áustria, França, Hungria e Irlanda. As objeções de alguns desses países, notadamente a França, estão fortemente ligadas às preocupações de seus setores agrícolas, que temem a concorrência de produtos do Mercosul, como evidenciado por protestos de agricultores. Essas posições contrárias demonstram as sensibilidades econômicas e setoriais dentro do bloco em relação a acordos de livre comércio de grande escala.
O processo de votação no Conselho Europeu exige que uma proposta obtenha o aval de pelo menos 15 dos 27 Estados-membros, representando conjuntamente um mínimo de 65% da população total da UE. O Acordo UE-Mercosul superou esses critérios, sendo aprovado por uma "ampla maioria", o que permitiu sua passagem apesar dos votos contrários. Este mecanismo de "maioria qualificada" é fundamental para a tomada de decisões no bloco e garante que acordos importantes possam avançar mesmo sem unanimidade.
É crucial destacar que a aprovação pelo Conselho representa uma etapa significativa, mas não final, para a entrada em vigor do acordo. O processo de ratificação dentro da UE ainda requer a aprovação do Parlamento Europeu. Esta fase adicional de escrutínio legislativo é um próximo passo essencial e potencialmente desafiador, onde as discussões sobre os termos do acordo, incluindo aspectos ambientais, sociais e trabalhistas, serão intensificadas antes de uma decisão final.
Impacto Econômico e Oportunidades para o Brasil e Mercosul
A aprovação do acordo UE-Mercosul representa um marco substancial para a economia do Brasil e dos demais países do Mercosul, abrindo um dos maiores mercados de livre comércio do mundo. Este pacto estabelece um ambiente propício para a expansão comercial, integrando duas das mais relevantes potências econômicas globais e criando um mercado consumidor de vastas proporções. A eliminação progressiva de barreiras comerciais e a harmonização de regulamentações visam otimizar o fluxo de bens e serviços, resultando em um impulso significativo para o comércio bilateral.
Estimativas da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) apontam para um potencial incremento de cerca de US$ 7 bilhões nas exportações brasileiras para a União Europeia. O mercado combinado resultante do acordo é impressionante, abrangendo uma população superior a 700 milhões de habitantes e um Produto Interno Bruto (PIB) que se aproxima dos US$ 22 trilhões. Este volume econômico posiciona o bloco recém-formado como um dos maiores do mundo, superando o PIB da China e sendo superado apenas pelos Estados Unidos, o que demonstra a escala e a relevância das oportunidades criadas.
Além do incremento direto nas exportações, o acordo oferece ao Brasil e ao Mercosul uma plataforma estratégica para diversificar suas parcerias comerciais e fortalecer sua posição no cenário global. A redução de barreiras tarifárias e não tarifárias pode impulsionar a competitividade dos produtos da região, atraindo investimentos estrangeiros e estimulando a modernização de cadeias produtivas. Acesso preferencial a um mercado tão robusto gera oportunidades em diversos setores, desde o agronegócio até a indústria manufatureira e de serviços, contribuindo para o crescimento econômico sustentável e a geração de empregos nos países do bloco sul-americano, bem como para uma maior integração nas cadeias de valor globais.
O Acordo em um Cenário Global de Comércio e Dependências
O Acordo UE-Mercosul emerge em um momento crucial para o comércio global, caracterizado por crescentes tensões geopolíticas e o uso estratégico de dependências econômicas. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, sublinhou esta realidade ao afirmar que, "Em um momento em que o comércio e as dependências estão sendo usadas como armas…", este acordo demonstra que a Europa "traça seu próprio curso e se mantém como uma parceira confiável." Isso posiciona o acordo não apenas como um pacto econômico, mas como uma declaração política sobre a busca por estabilidade e autonomia em um cenário internacional volátil.
Ao consolidar uma parceria entre dois grandes blocos econômicos, o acordo mitiga riscos inerentes à globalização, como a excessiva dependência de cadeias de suprimentos centralizadas ou de mercados específicos. Ele fortalece a resiliência econômica de ambas as regiões, promovendo a diversificação das relações comerciais e de investimento. Esta estratégia visa reduzir vulnerabilidades a choques externos, assegurando maior previsibilidade e segurança para empresas e consumidores em ambos os lados, e reforçando a capacidade de negociação conjunta em fóruns multilaterais.
Reconfiguração do Poder Comercial Global
A magnitude do bloco econômico formado pela União Europeia e pelo Mercosul é inquestionável no cenário global. Com uma população combinada de mais de 700 milhões de habitantes e um Produto Interno Bruto (PIB) estimado em quase US$ 22 trilhões, esta parceria cria um dos maiores mercados do mundo. Conforme dados citados, este PIB supera o da China (aproximadamente US$ 19 trilhões) e é superado apenas pelo dos Estados Unidos (cerca de US$ 29 trilhões), conferindo ao novo bloco um peso econômico significativo e capacidade de influenciar as dinâmicas comerciais e de investimento internacionais.
Essa fusão de mercados representa uma reconfiguração notável no xadrez comercial global. Ela oferece uma alternativa substancial às rotas de comércio tradicionais e pode catalisar a reorganização de cadeias de valor, promovendo maior diversificação geográfica e reduzindo a concentração de riscos. Além disso, ao estabelecer padrões e normas conjuntas para bens e serviços, o acordo tem o potencial de influenciar as regulamentações comerciais globais, incentivando um modelo de comércio mais aberto, previsível e baseado em regras, em contraponto a abordagens mais protecionistas ou transacionais.
Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

